Relatório na pandemia. Como fazer?

Como construir os relatórios de avaliação, para conseguirmos finalizar etapas com as crianças, em casa, sendo que temos praticamente zero acesso a eles?

Para ajudar você, eu listei abaixo alguns passos fundamentais para esse momento e para esse processo.

O que você precisa fazer é analisar junto com as famílias, junto com a gestão da sua escola, e refletir a respeito dos tópicos que vou abordar para conseguir construir os relatórios de avaliação da melhor forma possível.

Como lidar com a falta de participação das famílias?

Muitos professores têm comentado da pouca participação das famílias, alguns professores estão conseguindo no máximo 40% de engajamento, mesmo ligando, mesmo explicando, mesmo conversando com as famílias.

É preciso sempre conversar com a família, explicar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), explicar quais são os objetivos, deixar tudo bastante claro para que eles entendam a importância desse processo mesmo em casa, mesmo com aulas remotas, ou videoaulas, da forma que for, como é importante a criança participar desse processo, ela ter acesso a essas atividades, essas possibilidades, essas vivências, essas experiências.

Se você pensou… “Vivian, mas eu estou fazendo de tudo, eu conversei com a família, eu faço vídeo, eu conversei individualmente, e eu não estou conseguindo, a família não está participando”.

As atitudes das outras pessoas, nem sempre dependem de você.

Você pode falar da importância, pode explicar sobre a BNCC, pode explicar sobre o seu trabalho, pode explicar como esse trabalho vai influenciar e ajudar no desenvolvimento da criança, tudo isso você pode fazer, faça, continue fazendo.

Mas você não pode tomar a atitude pela família, pegar na mão deles e colocá-los para participar das aulas remotas, ou fazer as atividades com os filhos. Isso não dá para você fazer. E está tudo bem.

Uma das frases que eu sempre repito aqui é “foca no que você tem controle”.

O que mais eu posso fazer para engajar a família dos meus alunos, o que mais eu posso falar para eles se conscientizem da importância de participar, o que mais eu posso mandar para eles de opções de vídeo ou de aula, conversar, chamar para uma reunião, o que eu posso fazer? Pensa em você.

Se você tiver consciente que fez tudo que estava ao seu alcance, que você pensou, refletiu, analisou, usou sua criatividade, deu o seu melhor, e ainda assim só 40%, 60% ou 80%, das famílias estão participando, está tudo bem.

Não dá para tomar atitude pela família, só dá para você ensinar e ajudá-los.

Se as famílias estão falando que não tem tempo o que nós podemos conversar sobre tempo com eles?

Já pensou em gravar um vídeo ou enviar um textinho para a família explicando sobre a questão de o tempo ser apenas uma questão de prioridade?

Concorda comigo que tempo é prioridade? Quem quer dá um jeito, quem não quer arruma uma desculpa.

Porque a família “A” consegue fazer as atividades com a criança e a família ”B” não, se ambas tem 24 horas no dia? Decerto a família “A” priorizou fazer as atividades, a família “B” priorizou outras coisas.

Nós podemos gravar um vídeo, ou enviar um texto explicando isso para a família para eles refletirem.

Evitem ver a família de forma negativa, com maus olhos, pense em como você pode reverter esse pensamento da família.

Não podemos relatar algo que não aconteceu!

Dito tudo isso… Vamos aos nossos relatórios, e nos relatórios você vai focar naquilo que você sabe que está acontecendo.

“Ah Vivian, como eu vou fazer os relatórios das crianças que não estão participando?”

Seu eu falar para você, por exemplo, “Ana por favor descreva para mim a sensação de dirigir uma Ferrari”, supondo que a Ana nunca dirigiu uma Ferrari, como ela vai descrever essa sensação? Não tem como. Talvez ela possa imaginar como seria.

Professora faz o relatório do Arthur. Mas a família do Arthur nem foi buscar as atividades na escola, ou não acessou a plataforma, ou nunca viu um vídeo, ou não respondeu as mensagens no WhatsApp, enfim, qual seja o canal de comunicação que você esteja usando com a família, porque cada escola está usando um canal diferente, como você vai fazer um relato sobre isso?

Não tem mágica, não dá para inventar nem imaginar, as coisas estão acontecendo, ou não.

E quando não estão acontecendo você só precisa ter certeza que você fez todo o possível, que deu o seu melhor, que fez tudo que estava ao seu alcance.

As aulas estão acontecendo, tem família participando mais, tem família participando menos tem família que não está participando, mas você está trabalhando muito aí do outro lado. Você está colocando a mão não massa, gravando vídeos, fazendo texto, fazendo áudio, fazendo tudo que você pode, e agora você precisa fazer um registro disso, precisa relatar isso de alguma forma.

Seja um relatório, uma avaliação, um portfólio, um diário de bordo, qualquer tipo de relatório que você tenha que produzir, qualquer tipo de documento nesse sentido, você vai utilizar esses passos que eu preparei.

Então vamos lá!

Primeiro passo:

A primeira reflexão e questionamento que você precisa se fazer é: de que forma os conhecimentos que o aluno já possui foram considerados?

Nós sabemos que tivemos pouquíssimo tempo com as crianças, entre a primeira e a segunda quinzena de março as escolas fecharam.

Você lembra ou anotou que se seu aluno “X” já estava andando, que o “Y” já engatinhava, e que o “Z” ainda nem engatinhava? Você está levando em consideração tudo o que eles já faziam?

Tudo isso que a criança já sabia você está levando em consideração, você anotou as observações que você fez antes dessa pandemia, se certificou de ter observado cada um dos seus alunos individualmente?

Então essa é a primeira reflexão.

Segundo passo:

Quais são as características do seu aluno?

Em cima do que você fez antes da pandemia, e do que você vem conversando com as famílias, se você não está conversando com as famílias procure conversar.

Para você fazer esses relatos e registros é fundamental que tenha esse feedback da família, que você conversa com eles, que a família saiba que você está levantando essas informações, e  te passe essas informações, isso é importante.

Então anote quais são as características de cada um dos seus alunos hoje.

Terceiro passo:

Que providencias foram tomadas previamente para que as atividades fossem realizadas?

Você fez um vídeo, está fazendo texto, está enviando atividades impressas, os pais vem buscar, a escola enviou para casa, como você se organizou aí para que todo esse conteúdo, ou esse material, ou essa informação, chegasse até a família dos seus alunos e finalmente no aluno?

Se está dando certo ou não, se continua dessa forma, se muda a forma de tomar essas providências… Pense sobre isso.

Quarto passo:

Que instruções foram dadas para a sua realização? E elas foram bem formuladas?

É muito fácil falar de professor para professor.

Quando eu faço um post de atividade, por exemplo, eu não preciso escrever muitas vezes ali os mínimos detalhes. Tem professor que bate o olho só na foto que coloquei na publicação e já sabe o que fazer, tem professor que ainda lê o texto, aprofunda um pouco mais.

Nós professores estamos mais preparados para esse conteúdo, e essa linguagem, com os pais é diferente.

Quando nós elaboramos o nosso plano de aula, o nosso planejamento, normalmente só a gente lê, os nossos colegas de trabalho, a gestão. Os pais dificilmente leem nosso planejamento ou plano de aula.

Agora esses planejamentos, esses planos de aula, estão sendo construídos basicamente para os pais colocarem em prática, para as famílias realizarem.

Isso está sendo claro? Como eu estou passando essas informações?

Eu fiz um vídeo, eu fiz um texto, eu fiz um áudio, a família está de fato entendendo o meu recado, a minha mensagem, aquilo que eu quero que eles absorvam?

“Vivian claro, poxa, eu expliquei, eu escrevi lá, não é possível que eles não entenderam!” Gente é possível, é muito possível!

As famílias não têm o conhecimento que nós professores temos, então é importante refletir como essas instruções foram dadas, e se elas foram bem formuladas.

Quinto passo:

Qual é o objetivo da atividade, ou das atividades, que você propôs e que desafios que foram propostos para os alunos?

Pense nas atividades, pegue o seu plano de aula e de uma olha nas atividades que você sugeriu, e veja quais eram os objetivos daquelas atividades. Dentro daqueles objetos o que você tem que observar durante a atividade?

Sabe aquilo que já fazemos na escola? Por exemplo, a atividade é colocar os palitinhos no copinho, então qual o objetivo? O objetivo é coordenação motora, lateralidade, a criança vai pegar com as duas mãos.

O que eu preciso observar? Eu preciso observar se a criança consegue colocar dentro do copinho, se a criança coloca na primeira tentativa ou ela erra dependendo da largura da boca do copinho, se ela põe com a mão direita ou a esquerda, enfim, eu observo tudo isso.

Então eu preciso que a família me fale tudo isso. Já que eu não estou vendo, certo?

É claro que não vamos conseguir observar tudo, nem perguntar tudo como faríamos na escola, mas algumas coisas são importantes que nós perguntemos para a família.

Instrua a família sobre o que ela deve observar na atividade para eles poderem relatar para você. Quanto mais informações você conseguir reunir, melhor.

Sexto passo:

Quais são os conteúdos, os temas que eu trabalhei, o que eu enviei para a família?

Eu estou pensando em coordenação motora, estou pensando em atividades sensoriais, eu mandei atividades que a família possa participar dentro do dia a dia elaborando uma rotina?

Têm vários temas, vários conteúdos, várias possibilidades que eu posso ter utilizado nesses últimos meses.

Reflita sobre isso, anote, relembre as coisas que você já enviou para as famílias.

Sétimo passo:

Como foi a participação dos alunos nas atividades propostas?

Antes de pensarmos se tem muito aluno participando, ou se não tem muito aluno participando, eu sugeri Seis reflexões.

Tem seis coisas para você refletir junto com a gestão da sua escola, junto com as famílias dos seus alunos, quando for possível, antes de pensar efetivamente se a família e a criança participaram das aulas que você sugeriu.

Então aí sim você vai avaliar se eles participaram, quem participou e tudo mais que você vai anotando individualmente.

Oitavo passo:

Ouve interação entre os bebês, as crianças bem pequenas e a família? Como foi essa interação?

Você recebeu foto, recebeu vídeo, recebeu algum texto?

Às vezes recebemos uma mensagem não muito clara.

A família lá em abril falou “nossa prô, que atividade legal, nós adoramos essa aqui em casa”, então você percebe que teve interação, que aquela família fez.

Algumas vezes não é uma resposta tão clara “olha, aqui nós interagimos”, não precisa ser uma resposta pronta.

Se a família fala assim “ahh, eu não entendi essa atividade direito, me explica melhor”, você já sabe que eles estão interagindo, estão participando, estão buscando.

Procure ler essas entrelinhas, guarde todas essas informações para você ter todos os registros, faça print.

 Uma dica muito útil é criar uma pasta para cada aluno. Se não tiver espaço na memória do seu celular, ou computador, guarde em alguma nuvem como, por exemplo, o Google drive.

É bem importante fazer esse tipo de organização, ter todos esses documentos arquivados para poder se organizar e fazer os seus relatórios.

Nono passo:

Como a criança se comporta nas aulas, nas atividades?

Ela faz, ela não faz, ela gosta ou não, ela está vendo vídeos ou não, ela está ouvindo áudio da professora ou não tem áudio, quem está fazendo as atividades com ela o pai, a mãe, a tia, os irmãos participam ou não, tem irmão, não tem irmão, tudo isso.

Como está no dia a dia?

Décimo passo:

Quais são as habilidades, e as dificuldades?

O que a criança conseguiu colocar em prática?

O que ela teve dificuldade, o que ela não conseguiu fazer?

A família pode relatar isso, ou pode mandar foto, pode mandar áudio, mandar vídeo. E você ter, lá nas pastinhas, de cada aluno para poder construir o seu relatório.

Décimo primeiro passo:

A criança tem autonomia? Que tipo de autonomia ela tem?

Ela coloca a roupa sozinha, vai ao banheiro, usa fralda, ela abotoa a blusa, amarra o cadarço, pega os materiais para brincar?

Como está a questão da autonomia da criança? O que ela está fazendo sozinha, e o que a família está fazendo por ela?

Você lembrou de falar para a família que tem que deixar a criança fazer o máximo que ela conseguir, e mesmo o que ela ainda não consegue a família pode deixá-la tentar e experimentar?

Na correria do dia a dia as pessoas querem ir rápido, e para agilizar acabam fazendo as coisas pela criança. E por falta de conhecimento isso vai retardar o processo de autonomia da criança.

Fale com a família sobre isso, faz um vídeo do assunto, ou conversa individualmente, faz uma reunião onde todo mundo possa se ver em algum aplicativo de reunião, explique isso para a família.

Décimo segundo passo:

Como a criança reage as conquistas e aos fracassos?

Como ela fica quando não consegue fazer alguma coisa, ou quando a família fala não para algo, ela grita, ela chora, se joga no chão, o que ela faz, como ela reage?

E quando ela consegue, ela comemora aquela conquista, ela já quer partir para uma próxima, ela não demonstra nenhum tipo de motivação para fazer?

Décimo terceiro passo:

Como a criança reage aos conflitos?

Se não tiver irmãos na casa as chances de conflito são bem menores.

Na escola nós vemos bastante, elas disputam brinquedos umas com as outras, disputam lugar, enfim, nós conseguimos ver mais essa questão do conflito.

Em casa, caso tenha irmão, isso provavelmente está acontecendo.

Se não tiver irmãos é mais difícil porque a família, a mãe, o pai ou a avó, não vão entrar nesse tipo de conflito com a criança, ou vão ter menos chance de entrar.

Como a criança está reagindo com algum conflito, tem conflito, não tem, com quem é, como está sendo isso para ela em casa, nessa situação das atividades e tudo mais?

Décimo quarto passo:

E por último, mas não menos importante: Quais foram os avanços?

De tudo que você tem registrado de quando as aulas começaram no que a criança avançou?

A criança passou do engatinhar para o andar, do rolar para o sentar, ou do sentar-se para o engatinhar, ela não falava e agora está pronunciando algumas palavras, a criança não formava frases e agora forma, ela agora corre ou salta, enfim.

Muitas coisas temos para observar de acordo com a idade, de acordo com a fase de cada criança, e aí você consegue avaliar esses avanços, avaliar esses progressos mesmo com a distância desde que você esteja conversando com a família.

Para você poder avaliar esses avanços é importante que você conheça sobre o desenvolvimento infantil.

De zero a seis meses o que a criança faz, de seis meses a um ano o que a criança faz? Você tem que saber essa estrutura para entender o que seria esperado da criança em cada fase.

O novo “normal”

Você percebe que todos esses pontos que eu coloquei são pontos que não pensávamos antes?

Se você fez um relatório de avaliação ano passado não parou para refletir nada disso, porque isso não existia.

Você não teve que passar informação para a família, você viu o aluno fazendo a atividade, é diferente.

Os pontos que nós precisamos levantar são diferentes.

Nós precisamos refletir dentro dessa realidade, dentro do que nós temos para hoje.

Até porque não sabemos, tem grandes chances, principalmente na educação infantil, das aulas não retornarem esse ano na maioria das cidades.

Então vamos continuar nessa situação, muito provavelmente, até o final do ano. Temos que estar todo momento repensando sobre a nossa prática.

No mais, a forma como você vai escrever, os tipos de palavras que você vai usar isso tudo praticamente não muda. Você pode ver em https://bebeativo.com.br/como-fazer-o-relatorio-de-avaliacao-dos-alunos-de-0-a-3-anos/

Se você levantar esse material que eu sugeri aqui, refletir sobre ele, fizer as pastinhas de cada aluno com o máximo de informação que você conseguir, tentar contatar as famílias, falar com família por família, por telefone, conversar, anotar todas as informações de cada uma, e depois de todo esse material coletado você for fazer o seu relatório, ele vai ficar incrível.

Como está esse processo de avaliação na sua escola? Quais as suas maiores dificuldades… Me conta nos comentários…

Beijo

Vivian Mazzeo

6 comentários em “Relatório na pandemia. Como fazer?”

  1. Professora VIvian Mazzeo, ainda ñ recebi o certificado da maratona da educação de07/09 a 13/09/2020….estou preocupada, mandei aqui porq ñ estou conseguindo mandar e-mail, obrigada.

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